TDAH: Compreendendo o Transtorno para Além do Diagnóstico - Um Olhar Clínico, humano e Espiritual
1. O que é o TDAH segundo a ciência atual
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento de base genética, caracterizado por um padrão persistente de desatenção, hiperatividade e impulsividade que prejudica o funcionamento social, acadêmico ou profissional.
O DSM-5-TR classifica o TDAH em três apresentações: predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa/impulsiva e combinada. Afeta de 5% a 15% das crianças e pode persistir na vida adulta em até 60% dos casos. Não é “falta de limites” ou “mau comportamento”: estudos de neuroimagem mostram diferenças nos sistemas dopaminérgico e noradrenérgico, com redução da atividade nas vias fronto-mesencefálicas.
Sintomas centrais:
- Desatenção: dificuldade de manter foco, esquecimentos, desorganização, perde objetos, não termina tarefas.
- Hiperatividade: inquietação motora, fala excessiva, não consegue ficar parado.
- Impulsividade: age sem pensar, interrompe os outros, não espera a vez.
De diagnóstico complexo, o TDAH exige avaliação multidisciplinar. O tratamento se baseia no tripé: medicação, psicoterapia e orientação familiar. O remédio atenua os sintomas, a terapia recupera a autoestima e a segurança, e a orientação ensina a família a lidar com o portador.
2. O caminho até o diagnóstico: peregrinação e incompreensão
É comum os pais chegarem ao psiquiatra depois de uma história de peregrinação, insucessos e confusões de diagnósticos. Crianças com TDAH são frequentemente rotuladas como “alunos problemáticos”, donos da antipatia de professores e rejeitados pelos colegas. Em casa, o relacionamento com os pais quase sempre se limita a repreensões.
Por isso, os portadores começam a se sentir desmoralizados e desenvolvem uma autoimagem negativa: acreditam-se incompreendidos por todos. Eles acabam punidos por atitudes que não têm como controlar. Sem diagnóstico e apoio, os problemas tendem a piorar na adolescência, redundando em depressão, abuso de álcool e drogas, além de envolvimento em atos agressivos e delinquência.
No caso de Marcos, apresentado pela psicóloga Célia, os testes revelaram falhas de raciocínio lógico e abstrato, principalmente em matemática. A escola que frequentava, voltada à formação de “futuros doutores”, não era adequada. Ele precisava de uma escola menos exigente, com alunos do mesmo nível. Marcos estava na mesma instituição desde a pré-escola, sempre tido como lento, distraído e indisciplinado. Teve uma repetência no primeiro ano e três na quinta série. Nunca se levantou a possibilidade de seus problemas serem físicos/neurológicos.
O mais relevante é diagnosticar precocemente a síndrome, pois as repercussões ocasionam consequências negativas na vida das crianças e de suas famílias. Entretanto, só o psiquiatra pode fazer uma avaliação precisa.
3. O impacto na autoestima e no núcleo familiar
Glória e João fizeram muito pelo filho. Queriam que os três frequentassem uma das melhores escolas da cidade. A filha Míriam foi desde o início uma aluna brilhante. Carlinhos seguia a mesma linha, tendo o pai como ídolo. E Marcos, por mais que se esforçasse, era diferente: nunca trazia orgulho por realizações acadêmicas.
Marcos se sentia deslocado em casa, no prédio e na escola. Todos lhe cobravam o que não podia realizar. Sem autoestima, sem perspectiva, o caminho é a fuga. Não assistir às aulas era fugir dos problemas que era incapaz de resolver. Conviver com os piores alunos era procurar iguais. Os “amigos da praia” falavam a mesma linguagem, e a droga dava certo alívio à tensão.
Na casa dos pais, o ambiente era intelectualizado. Por ter grande dificuldade de acompanhá-los, Marcos se sentia inferiorizado, diferente dos irmãos. Não que os pais fizessem distinção: o amavam muito. Mas, por seu orgulho ferido, ele se isolou, com vergonha de si próprio e inveja por não ter inteligência igual à dos irmãos e do pai, visto por todos com admiração.
A psicóloga Célia observou: morar com o avô, Sr. Manuel, ajudou muito. Por ser uma pessoa simples e amorosa, conseguia falar a mesma linguagem do neto. Isso melhorou sua autoestima. O tratamento o ajudaria a controlar a doença.
4. O que diz a legislação brasileira
O acompanhamento integral para educandos com TDAH é direito garantido por lei.
Lei nº 14.254/2021 determina que o poder público deve desenvolver programa de acompanhamento integral, que compreende: identificação precoce, encaminhamento para diagnóstico, apoio educacional na escola e apoio terapêutico na saúde. As escolas públicas e privadas devem garantir cuidado e proteção ao educando, com vistas ao pleno desenvolvimento. Educandos com TDAH devem ter assegurado acompanhamento específico direcionado à sua dificuldade, da forma mais precoce possível.
A Lei Brasileira de Inclusão, Lei nº 13.146/2015, assegura educação inclusiva com plano educacional individualizado, atendimento especializado e avaliações adaptadas.
5. Necessidades evolutivas: o olhar espiritual
Para além do corpo físico, a Doutrina Espírita compreende o TDAH também como parte das necessidades evolutivas do Espírito. No livro Minha vida pelo seu perdão, ditado pelo espírito Irmã Vitória à médium Berenice Germano, encontramos uma reflexão que complementa o entendimento clínico:
“Cada Espírito traz em sua bagagem evolutiva as necessidades que lhe são próprias. As dificuldades de concentração, a inquietude e a impulsividade muitas vezes revelam um Espírito que ainda não aprendeu a disciplinar suas energias mentais, fruto de experiências passadas onde o livre-arbítrio foi usado de forma desordenada. A família que recebe uma criança com TDAH tem a missão de amor de auxiliá-la nesse aprendizado, sem cobranças que humilhem, mas com firmeza educativa que oriente. O fundamental é conhecer as limitações e, com muito amor, poder ajudá-lo a desenvolver suas habilidades latentes.”
Essa visão não exclui o tratamento médico. Ao contrário: reforça que com bom tratamento físico e psicológico, o portador poderá ter significativa melhora. A família não deve projetar expectativas acadêmicas irreais. Talvez não tenham em casa mais um doutor, e sim um bom motorista de táxi como o avô, capaz de constituir família e cuidar dela com dignidade. O essencial é que ele aprenda a controlar a agressividade, o temperamento ciumento e, melhorando a autoestima, desenvolva suas habilidades.
6. Caminhos de acolhimento
- Mude a escola, se necessário: ambiente excessivamente exigente piora o quadro. A criança precisa de lugar onde se sinta capaz.
- Trate a autoestima: elogie esforços, não só resultados. Evite comparações com irmãos.
- Busque tratamento integrado: psiquiatra, psicólogo, psicopedagogo e orientação parental.
- Exerça seus direitos: cobre da escola o cumprimento da Lei 14.254/2021. Solicite adaptações e plano individualizado.
- Ame sem cobranças irreais: como disse a psicóloga à Glória: “Enxugue essas lágrimas; logo ele estará aí e espero que tenha seu melhor sorriso para recebê-lo.”
O TDAH não define o valor de ninguém. Compreensão, tratamento e amor são o tripé da verdadeira inclusão.
Referências Bibliográficas
- AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- BRASIL. Lei nº 14.254, de 30 de novembro de 2021. Dispõe sobre o acompanhamento integral para educandos com dislexia ou TDAH.
- BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.
- MSD MANUALS. Transtorno de deficit de atenção/hiperatividade (TDAH). Edição para profissionais, 2024.
- MINISTÉRIO DA SAÚDE. Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade – TDAH. Biblioteca Virtual em Saúde MS.
- GERMANO, Berenice. Minha vida pelo seu perdão. Pelo espírito Irmã Vitória. Editora Viva Luz, capítulo 42 “Necessidades Evolutivas”, p. 326.
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