INTRODUÇÃO
O que seria a
utilização do computador na educação de maneira inteligente? Seria fazer aquilo
que o professor faz tradicionalmente ou seja passar a informação para o aluno,
administrar e avaliar as atividades que o aluno realiza, enfim, ser o
"braço direito" do professor; ou seria possibilitar mudanças no
sistema atual de ensino, ser usado pelo aluno para construir o conhecimento e,
portanto, ser um recurso com o qual o aluno possa criar, pensar, manipular a
informação?
A análise dessa
questão nos permite entender que o uso inteligente do computador não é um
atributo inerente ao mesmo mas está vinculado a maneira como nós concebemos a
tarefa na qual ele será utilizado. Um sistema educacional mais conservador
certamente deseja uma ferramenta que permite a sistematização e o controle de
diversas tarefas específicas do processo atual de ensino. Uma máquina de
ensinar e administrar esse ensino facilita muito a atividade do professor.
Sistemas computacionais com essas características já foram desenvolvidos,
desempenhando tarefas que contribuem muito para essa abordagem educacional e
passam a ser muito valorizados pelos profissionais que compartilham dessa visão
de educação. Por outro lado, os profissionais da educação que não compartilham
dessa abordagem educacional certamente não necessitam de sistemas
computacionais com tais características. Mesmo os sistemas de ensino mais
sofisticados, com qualidades de inteligência - como a capacidade de identificar
os erros cometidos pelos alunos ou indicar tarefas de acordo com o nível do
aluno - não são considerados como uma forma de uso inteligente do computador na
educação.
Isso significa
dizer que a análise de um sistema computacional com finalidades educacionais
não pode ser feita sem considerar o seu contexto pedagógico de uso. Um software
só pode ser tido como bom ou ruim dependendo do contexto e do modo como ele
será utilizado. Portanto, para ser capaz de qualificar um software é necessário
ter muito clara a abordagem educacional a partir da qual ele será utilizado e
qual o papel do computador nesse contexto. E isso implica ser capaz de refletir
sobre a aprendizagem a partir de dois pólos: a promoção do ensino ou a construção
do conhecimento pelo aluno.
Nesse artigo
será defendida a idéia de que o uso inteligente do computador na educação é
justamente aquele que tenta provocar mudanças na abordagem pedagógica vigente
ao invés de colaborar com o professor para tornar mais eficiente o processo de
transmissão de conhecimento.
SOFTWARE
QUE PROMOVEM O
ENSINO
O termo ensino
está sendo entendido segundo a origem latina da palavra (insignare), ou seja, a transmissão de conhecimento, de informação
ou de esclarecimentos úteis ou indispensáveis à educação e à instrução. Nesse
caso, o conhecimento gerado pela humanidade é compilado, classificado,
hierarquizado de acordo com o grau de dificuldade e ministrado ao aluno a
partir do nível mais fácil para o mais difícil. Essa concepção de educação é
baseada no modelo empirista e assume que a retenção do conhecimento se dá como
conseqüência da contigüidade e da freqüência com que ele é transmitido. Se o
professor se esmera na preparação e na transmissão do conhecimento ao aluno, e
se o aluno realiza um bom trabalho na memorização desse conhecimento, está
garantido o sucesso do processo de ensino.
Quando o
computador é usado para passar a informação ao aluno, o computador assume o
papel de máquina de ensinar, e a abordagem pedagógica é a instrução auxiliada
por computador. Geralmente os software que implementam essa abordagem são os
tutoriais, os software de exercício-e-prática e os jogos. Os tutoriais
enfatizam a apresentação das lições ou a explicitação da informação. No
exercício-e-prática a ênfase está no processo de ensino baseado na realização
de exercícios com grau de dificuldade variado. Nos jogos educacionais a
abordagem pedagógica utilizada é a exploração livre e o lúdico ao invés da
instrução explícita e direta (Valente, 1993a). Esses software podem ser
incrementados com características de inteligência como os "intelligent
tutorial systems", capazes de identificar os erros mais freqüentes e
ajudar os alunos a superá-los (como o sistema Buggy), auxiliar a resolução de
problemas específicos (como os sistemas especialistas), ou software para
auxiliar o professor a planejar suas aulas ou a monitorar o desempenho dos
alunos (Wenger, 1987).
Os software que
promovem o ensino existentes no mercado mostram que a tarefa do professor é
passível de ser totalmente desempenhada pelo computador e, talvez, com muito
mais eficiência. Primeiro, o computador tem mais facilidade para reter a
informação e ministrá-la de uma maneira sistemática, meticulosa e completa. O
computador jamais se esquece de um detalhe, se isso estiver especificado no seu
programa. Uma dor de cabeça ou um problema familiar jamais altera a sua
performance. Segundo, essa capacidade de sistematização do computador permite
um acompanhamento do aluno em relação aos erros mais freqüentes e à ordem de
execução das tarefas. Muitas vezes o professor tem muita dificuldade em
realizar esse acompanhamento que pode ser feito pelo computador de uma maneira
muito mais detalhada. Terceiro, os sistemas computacionais apresentam hoje
diversos recursos de multimídia, como cores, animação e som, possibilitando a
apresentação da informação de um modo que jamais o professor tradicional poderá
fazer com giz e quadro negro, mesmo que ele use o giz colorido e seja um exímio
comunicador. A vida das crianças está tão relacionada com o uso dessas mídias
que é inglório tentar competir com a informática.
Se é esse o
panorama, a pergunta mais natural é por que não enveredarmos por esse caminho e
disseminarmos os software que promovem o ensino? A questão é que essa abordagem
educacional não dá conta de produzir profissionais preparados para sobreviver
no mundo complexo em que vivemos. O mundo atualmente exige um profissional
crítico, criativo, com capacidade de pensar, de aprender a aprender, de
trabalhar em grupo e de conhecer o seu potencial intelectual, com capacidade de
constante aprimoramento e depuração de idéias e ações. Certamente, essa nova
atitude não é passível de ser transmitida mas deve ser construída e
desenvolvida por cada indivíduo, ou seja, deve ser fruto de um processo
educacional em que o aluno vivencie situações que lhe permitam construir e
desenvolver essas competências. E o computador pode ser um importante aliado
nesse processo.
SOFTWARE
QUE AUXILIAM A
CONSTRUIR CONHECIMENTO
Como auxiliar do
processo de construção do conhecimento, o computador deve ser usado como uma
máquina para ser ensinada. Nesse caso, é o aluno quem deve passar as
informações para o computador. Os software que permitem esse tipo de atividade
são as linguagens de programação, como BASIC, Pascal, Logo; os software denominados de aplicativos, como
uma linguagem para criação de banco de dados, como DBase ou um processador de
texto; ou os software para construção de multimídia. Esses software oferecem
condições para o aluno resolver problemas ou realizar tarefas como desenhar,
escrever etc. Isso significa que o aluno deve representar suas idéias para o
computador, ou seja, "ensinar" o computador a resolver a tarefa em
questão.
Para "ensinar" o computador a realizar uma determinada tarefa,
o aluno deve utilizar conteúdos e estratégias. Por exemplo, para programar o
computador usando uma linguagem de programação, o aluno realiza uma série de
atividades que são de extrema importância na aquisição de novos conhecimentos
(Valente, 1993b). Primeiro, a interação com o computador através da programação
requer a descrição de uma idéia em
termos de uma linguagem formal e precisa. Segundo, o computador executa fielmente a descrição fornecida
e o resultado obtido é fruto somente do que foi solicitado à máquina. Terceiro,
o resultado obtido permite ao aluno refletir
sobre o que foi solicitado ao computador. Finalmente, se o resultado não
corresponde ao que era esperado, o aluno tem que depurar a idéia original através da aquisição de conteúdos ou de
estratégias. A construção do conhecimento acontece pelo fato de o aluno ter que
buscar novas informações para complementar ou alterar o que ele já possui. Além
disso, o aluno está criando suas própria soluções, está pensando e aprendendo
sobre como buscar e usar novas informações (aprendendo a aprender).
Embora essa idéia seja mais adequada na formação de profissionais para a
sociedade atual, ela tem se mostrado mais complicada na sua implantação.
Primeiro, o ciclo descrever-executar-refletir-depurar-descrever não acontece
simplesmente colocando o aluno frente ao computador. A interação
aluno-computador precisa ser mediada por um profissional que tenha conhecimento
do significado do processo de aprendizado através da construção do conhecimento,
que entenda profundamente sobre o conteúdo que está sendo trabalhado pelo aluno
e que compreenda os potenciais do computador. Esses conhecimentos precisam ser
utilizados pelo professor para interpretar as idéias do aluno e para intervir
apropriadamente na situação de modo a contribuir no processo de construção de
conhecimento por parte do aluno. Além disso, essa abordagem exige mudanças
profundas do sistema educacional, como a alteração do papel atribuído ao erro
(não mais para ser punido, mas para ser depurado), a não segregação das
disciplinas, a promoção da autonomia do professor e dos alunos e a
flexibilização de um sistema rígido, centralizado e controlador. Enfim,
transformar a escola que nós conhecemos.
CONCLUSÕES
Se o computador pode ser usado
para catalisar e auxiliar a transformação da escola, mesmo diante dos desafios
que essa transformação nos apresenta, essa solução, a longo prazo, é mais
promissora e mais inteligente do que usar o computador para informatizar o
processo de ensino.
O ensino tradicional ou a
informatização do ensino tradicional são baseados na transmissão de
conhecimento. Nesse caso, tanto o professor quanto o computador são
proprietários do saber, e assume-se que o aluno é um recipiente que deve ser
preenchido. O resultado dessa abordagem é o aluno passivo, sem capacidade
crítica e com uma visão de mundo limitada. Esse aluno, quando formado, terá
pouca chance de sobreviver na sociedade atual. Na verdade, tanto o ensino
tradicional quanto a informatização desse ensino prepara um profissional
obsoleto.
As mudanças que ocorrem nos meios de produção e de serviço indicam que
os processos de apreciação do conhecimento assumirão papel de destaque, de
primeiro plano (Drucker, 1993). Essa mudança implica em uma alteração de
postura dos profissionais em geral e, portanto, requer o repensar dos processos
educacionais. Nesse caso, devemos utilizar todos os recursos disponíveis para
isso, inclusive o computador, mesmo sabendo que não estamos usando os mais
sofisticados sistemas computacionais. Devemos ter muito claro o que é
importante do ponto de vista pedagógico e como tirar proveito da tecnologia
para atingirmos tal objetivo. Isso é ser inteligente. Informatizar o ensino é
solução mercadológica, moderninha, paliativa e que só contribui para adiar as
grandes mudanças que o atual sistema de ensino deve passar. Isso não é solução
inteligente!
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Drucker, P.F. (1993).
Post-Capitalist Society. New York: HarperCollins.
Valente, J.A. (1993a). Diferentes Usos do Computador na Educação. Em
J.A. Valente (Org.), Computadores e
Conhecimento: repensando a educação (pp.1-23). Campinas, SP: Gráfica da UNICAMP.
Valente, J.A. (1993b). Por Quê o Computador na Educação. Em J.A. Valente
(Org.), Computadores e Conhecimento:
repensando a educação (pp. 24-44). Campinas,
SP: Gráfica da UNICAMP.
Wenger, E. (1987) Artificial
Intelligence and Tutoring System: Computational and Cognitive Approaches to the
Communication of Knowledge. Califórnia: Morgan Kaufmann Publishers.
Texto publicado na:
Pátio - revista pedagógica
Editora Artes Médicas Sul
Ano 1, Nº 1, pp.19-21









