Revista
Nova Escola – Agosto/2003
O
surgimento dos computadores e, mais tarde, de uma rede para interligar as
pessoas em todo o mundo, foi uma conquista tão importante para a humanidade
como o controle sobre o fogo, acredita o filósofo francês Pierre Lévy.
Segundo ele, estamos entrando na época da noosfera (o prefixo noo quer dizer
"relativo ao espírito"), na qual aparece pela primeira vez a
possibilidade de construir uma inteligência coletiva. No livro Cibercultura,
ele lança a pergunta e dá a resposta: "Como manter as práticas pedagógicas
atualizadas com esses novos processos de transação de conhecimento? Saindo de
uma educação e de uma formação institucionalizadas (a escola, a universidade)
para uma situação de troca generalizada de saberes". Para chegar a essa
cultura planetária, a escola precisa assumir um papel fundamental: criar
modelos de aprendizagem em que o professor seja um "animador da
inteligência coletiva" do grupo de alunos e não mais um fornecedor de
conhecimentos. Professor da cadeira de Pesquisas sobre Inteligência Coletiva da
Universidade de Ottawa (Canadá), Lévy afirma que todos temos a obrigação de
enriquecer nossa coleção de competências ao longo da vida. Ou seja, a divisão
clássica entre um tempo de estudo e outro de trabalho já era. Em maio ele
esteve em São Paulo e concedeu a seguinte entrevista.
O
senhor criou a expressão "inteligência coletiva". O que é isso?
É
a capacidade de trocar idéias, compartilhar informações e interesses comuns,
criando comunidades e estimulando conexões. Para começar, tome o cérebro
humano. Fazemos infinitas conexões que se intensificam à medida que
envelhecemos. Agora imagine que podemos, graças ao computador, integrar essa
"constelação de neurônios" com a de milhões de outras pessoas. Essa
é a comparação que faço. A internet nos permite hoje criar uma superinteligência
coletiva, dar início a uma grande revolução humana.
O
que essa idéia de inteligência coletiva tem a ver com a educação?
Eu
vejo uma mudança qualitativa nos processos de aprendizagem, rumo a uma
aprendizagem cooperativa. Aliás, essa é a melhor tradução de inteligência
coletiva para o campo educativo. Num cenário como esse, o professor torna-se
um animador da inteligência coletiva da turma. Estamos iniciando uma época em
que iniciativa, liderança, ânimo e empenho serão características cada vez
mais valorizadas. Se você é um empregado que tem como objetivo pessoal
produzir o menos possível, não está fazendo nada de bom — nem para o próprio
desenvolvimento particular nem para a sociedade. O que a sociedade precisa é
que todos tentem se desenvolver até o máximo de suas potências criativas,
seja criando negócios e teorias ou então inventando ferramentas e produtos,
de acordo com as habilidades de cada um.
O
local ideal para formar esse ambiente estimulante e criativo é a
universidade?
Acredito
que o primeiro agrupamento humano que tomou consciência de estar criando uma
inteligência coletiva foi a universidade, com as comunidades de cientistas e
especialistas de vários países que estudam simultaneamente um mesmo tema.
Isso se tornou possível porque a produção de conhecimento e os avanços
científicos estão fortemente embasados na colaboração. Hoje penso que a
universidade continua tendo um papel importante na construção da inteligência
coletiva, mas jamais um papel exclusivo. Isso é tarefa de toda a sociedade.
Como
a escola pode participar dessa construção da inteligência coletiva?
Praticando-a,
dando exemplos. Eu penso que os professores da Educação Básica devem
estimular o que chamo de "competição cooperativa" entre os alunos,
ensinando-os a fazer parte de um time e a usar os computadores ligados à rede
mundial.
O
que é, exatamente, essa "competição cooperativa"?
Existe,
naturalmente, uma grande disputa entre os estudantes. Quem tem as melhores
notas, quem é o segundo, quem é o último. A competição faz parte da escola,
mas por si só ela é negativa. Penso que é papel de todos os educadores usar
essa energia para produzir questões como "quem é o mais criativo?"
(em vez de "quem é capaz de repetir o que o eu disse?"). Incentivar
a cooperação entre os estudantes é uma forma de estabelecer outro padrão de
disputa e valorizar a integração. Isso é a competição cooperativa.
O
senhor defende que a escola deve preparar os alunos para uma aprendizagem
cada vez mais veloz. Por quê?
A
velocidade na aprendizagem aumentou porque vivemos numa cultura na qual o
conhecimento muda muito mais rapidamente do que em séculos passados. Se eu
vivesse na Idade Média ou na época do Império Romano, o que tivesse aprendido
quando jovem ainda seria verdadeiro por ocasião da minha morte. Assim, eu
usaria durante o resto da vida o que vi na escola. Atualmente isso não vale
mais. A informação circula com enorme rapidez e é cada vez mais fácil ter
acesso a ela, graças aos computadores e à internet. Por isso, a escola
precisa acompanhar essa velocidade do mundo.
A
internet é, para usar uma expressão sua, um "hiperdocumento vivo em
expansão permanente". Essa avalanche de informações não vai parar nunca?
Penso
que não. Estamos apenas no início de uma espécie de explosão cultural, uma
explosão que é exponencial e renova o sentido de liberdade. É preciso ter
consciência de que a existência da internet não significa que tudo possa ser
acessado. Ao contrário. O que é importante é saber que ganhamos opções,
porque não precisamos concordar com tudo nem podemos, individualmente, saber
de tudo. O barato é a oportunidade de fazer conexões com pessoas que
compartilham interesses comuns. Por isso, acredito que essa rede vai, sim, se
tornar infinitamente mais complexa. Exatamente como acontece com os neurônios
do nosso cérebro.
O
que o senhor acha de um filme como Matrix, que parte do pressuposto de que a
realidade é fruto de um programa de computador?
É
um grande filme. Sobretudo porque fala de questões que nada têm a ver com a
informática. Eu o vejo como uma espécie de história budista. No filme, os
heróis descobrem que a realidade que eles percebem por meio de seus sentidos
é inteiramente fabricada por uma máquina e que a "realidade real",
por assim dizer, está além do que eles conseguem ver, exatamente o mesmo que
os budistas dizem a respeito da ilusão.
Qual
foi seu primeiro contato com o computador?
Eu
tinha em torno de 17 anos e estava prestando o serviço militar. Era
encarregado de alimentar os computadores do Exército com cartões de
identificação perfurados, para gerar listas. Tratava-se de um sistema
rudimentar que empregava a lógica binária dos computadores, ainda que não
possuísse tela nem teclado.
Por
que o senhor classifica o computador como "máquina universo"?
Porque
ele materializa um sonho matemático de criar uma máquina capaz de calcular
tudo. Havia na França, no fim da década de 1970, um sistema chamado Minitel,
uma espécie de internet desenvolvida pela companhia de telecomunicações e
mantida pelo Estado com propósitos estratégicos. Na quela época, eu li pela
primeira vez textos e livros que falavam da possibilidade de integrar os
computadores numa rede e logo compreendi que aquela seria uma grande
revolução.
Os
computadores criaram um paradoxo: as idéias são mais valorizadas e ao mesmo
tempo é mais fácil enviar pela internet textos anônimos e falsificações...
Essa
questão é essencial. A propriedade intelectual é cada vez mais importante
porque é justamente nela que se sustenta o patrimônio das pessoas mais ricas
do mundo. A riqueza está nas idéias. Por isso, não acredito que a propriedade
intelectual desaparecerá na internet. Na minha opinião, o que vai ocorrer é
que, após um período de transição, teremos uma necessidade de adaptar as
regras de propriedade intelectual para uma nova situação, mais flexível,
provocada por essa facilidade de divulgar idéias via internet.
O
que levou o senhor a decidir se mudar da França para o Canadá?
Porque
eu queria lecionar uma disciplina que se chamasse Inteligência Coletiva e, na
França, não consegui. No Canadá me disseram: "Você quer criar uma
disciplina? Vá em frente". Assim pude desenvolver, na Universidade de
Ottawa, um projeto de dez anos de duração que tem por objetivo estudar e
acompanhar a formação da inteligência coletiva.
Durante
acontecimentos recentes, como a guerrano Iraque, vimos pela primeira vez a
ocorrência de manifestações simultâneas e vinculadas em várias partes do
mundo. Isso é uma "conexão planetária"?
Sim,
sem dúvida nenhuma. A simultaneidade dessas manifestações sinalizou o
nascimento de um espaço público global, ou seja, a formação de um canal de
expressão para uso de uma opinião pública mundial.
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sexta-feira, 29 de julho de 2016
O filósofo francês diz que a internet vai nos permitir construir uma inteligência coletiva
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